Uma agente de segurança da
Penitenciária II de Serra Azul
(SP) acusa um dos diretores da unidade de assédio sexual. Segundo a
mulher, de 44 anos, o chefe a intimidou, disse que sentia atração por
ela e, sem sucesso nas investidas, ainda se masturbou diante dela,
dentro da sala de trabalho.
A Polícia Civil investiga o caso. O delegado Eduardo Martinez afirmou
que não comentará detalhes sobre o inquérito, apenas confirmou já ter
registrado o depoimento da vítima e de testemunhas. O suspeito ainda
será convocado para prestar esclarecimentos.
O advogado da vítima, Edson Nunes da Cosa, disse que ingressou com um
pedido de investigação por meio de Procedimento Administrativo
Disciplinar (PAD), uma espécie de sindicância interna.
Em nota, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informou que
a direção da unidade instaurou um Procedimento Apuratório Preliminar
para averiguação dos fatos. Segundo a secretaria, os dois servidores - o
diretor e a agente - foram transferidos para outras funções enquanto
acontece a apuração administrativa.
Denúncia
Em entrevista ao
G1, a agente penitenciária, que
prefere não ser identificada, contou que levou dois meses para levar o
caso à polícia e aos superiores porque sentia medo de ser penalizada,
uma vez que o suspeito é seu chefe direto.
“Ele foi aprovado no mesmo concurso que eu. Ele era meu amigo, era
amigo de sentar, trocar ideia, falar dos problemas, a gente conversava
sobre coisas da vida, do trabalho. É isso que me deixa pior, ele era meu
amigo”, afirmou.
A servidora contou que estava afastada do trabalho há quatro anos,
devido a um tratamento contra depressão. Em julho, quando retornou às
funções, foi designada para atuar no rol de visitas do presídio, junto à
documentação dos familiares dos presos.
Logo nos primeiros dias, ela disse que percebeu as investidas do
diretor, que chegou a convidá-la para visitar sua casa. Entretanto, no
dia 12 daquele mês, quando estava em sua mesa de trabalho, o suspeito
passou por ela e encostou o órgão genital em seu braço.
“Minha colega viu e eu fiquei sem graça. Eu não sabia o que fazer. Eu
não sabia se chorava, se saía dali. A única coisa que eu fiz foi dizer
‘ou, isso é assédio sexual’. Ele atravessou a sala rindo, como se fosse
uma brincadeira”, afirmou.
No mesmo dia, após a colega com quem trabalha ir embora, a agente disse
que o chefe voltou à sala, sentou-se diante dela e começou a dizer que
sentia atração por ela. Nesse momento, disse que estava excitado e pediu
que colocasse a mão em seu órgão genital.
“Ele falou ‘Não, você vai lá em casa (sic), a gente não vai fazer nada
que você não queira.’ Daí eu disse ‘Como é que é?’. Daí ele começou a
dizer umas coisas nojentas para mim, que está no depoimento e não quero
nem lembrar porque eu começo a passar mal”, relembrou.
Diante da recusa, ainda segundo a agente penitenciária, o diretor se
levantou, se posicionou entre os armários da sala, em um local onde as
câmeras de segurança não conseguem filmar, abaixou a calça e passou a se
masturbar diante dela.
“Eu pensei em tudo. Pensei em jogar a cadeira nele, em jogar o furador
de papel nele, em voar na jugular dele, eu pensei em correr dali. Eu
pensei em tudo, eu pedia para ele sair da sala, e ele não saía”,
afirmou.
A servidora disse então que correu, se trancou no banheiro e permaneceu
ali os minutos que faltavam para terminar o expediente. Ela contou que
chorou muito e só pensava que poderia fazer nada porque não tinha provas
do que havia acontecido.
“Eu me tranquei no banheiro e pensei ‘eu não tenho provas, o que eu vou
fazer?’. Eu saí dali me sentindo um lixo, eu chorei dentro do banheiro,
eu chorei dentro do ônibus na hora de ir embora. Eu chorei durante três
semanas à noite, eu senti medo”, desabafou.
Provas do assédio
A mulher disse que, a partir do episódio, o diretor passou a cercá-la,
sempre impedindo que ficasse sozinha com outros funcionários, mas os
dois não conversaram sobre o que havia ocorrido. Ela disse ainda que
começou a tomar calmantes e chorava com frequência.
Em agosto, uma colega de trabalho percebeu que ela não estava bem e
passou a questioná-la sobre isso. A funcionária revelou que sabia que o
chefe encostou o órgão genital no braço dela, porque outra servidora que
presenciou o fato contou o que havia ocorrido.
“Eu não tinha comentado com ninguém, nem com meu psiquiatra. Então, eu
contei o resto e ela ficou indignada, disse que era muito grave e que
alguma coisa tinha que ser feita. Foi nesse momento que eu pensei ‘Não
posso me deixar acuar”, relembrou.
A servidora disse que, orientada por um amigo, decidiu gravar a
confissão do diretor. Usando o celular, chamou o chefe para duas
conversas e o questionou sobre o fato. O diálogo foi gravado em áudio, e
acabou anexado ao inquérito policial e ao pedido de sindicância.
“Ele contava com meu medo, meu silêncio, minha falta de provas, meu
estigma de ser encrenqueira. Eu saí me sentindo culpada, eu saí
pensando: o que eu fiz para dar a entender a esse cara que eu não mereço
respeito? Eu me senti um lixo”, desabafou.
fonte:
G1